A sedução do cotidiano

            Os nossos olhos passeiam pela beleza intuitiva de uma natureza virgem e tímida que espera adormecido acordar de uma humanidade inconsciente, escondida dentro de um país “abençoado por Deus e bonito por natureza”.

            Viajando através de uma caravela portuguesa, percebemos que das águas que banham nosso país, vieram o veneno e o antídoto de uma história que nos faz navegar através de um cotidiano colorido, simples e inocente, retratando desde a nudez simples e bonita que não necessitava de panos para esconder as vergonhas, indo até, o sentimento do mundo aonde o analfabetismo ainda não foi erradicado.

            Entre uma linha e outra caberia muito açúcar, mas também, muito fel.

            Sem luxos e sem cobiças, os índios souberam aproveitar a beleza da vida e a alegria de amar. Extinguiram-se por serem uma humanidade inocente, vivendo em uma sociedade selvagem.

            A selva abrigou-se em um cortiço, onde um português pragmático e ambicioso, por sua perseverança, se apossa de pessoas humildes e as usam como pequenas marionetes, como chave de um futuro desconhecido, julgado como brilhante.

A cobiça começa a ganhar vida, e esta vida ganha o meio, caindo nos olhos de ressaca, onde seu determinismo e dissimulação alcançam metas traçadas, vindo emaranhar-se novamente nos braços da desconfiança, do ciúme, de um homem fraco que provou do seu próprio veneno e que jamais alcançou novamente a real felicidade.

Do café que superou a cana, nada muito diferente da realidade aonde o trabalho branco e assalariado se estende como continuidade de trabalho forçado, movido por um chicote que rasgou muitas peles de negros índios a muitos anos atrás.

Caminhando por entre mares, caímos novamente em um cotidiano, onde as garras de um Coronel aguçado de vaidade, desprovido de forças para continuar os seus objetivos, explorando pessoas menos favorecidas, distante dos benefícios da conseqüência de um trabalho, revela o variado tecido social de uma crise ditadora, difundida em um binômio entre o certo e o errado.

O nordeste se individualiza, os movimentos messiânicos passam a ser a saída para as injustiças sociais. A religião católica não atende mais as necessidades das classes mais humildes. O desmando, o banditismo, o mandonismo local, o voto de cabresto são os cenários do Nordeste decadente.

Diante da maldade, da sociedade materialista, encontramos a Luz do Criador, sonhando com uma outra humanidade, aquela talvez, que há 500 anos atrás, foi exterminada e que hoje buscamos cientificamente o antídoto para ressurgi-la.

Ressurgi-la como?

Talvez "se o mais simples fosse visto como o mais importante", pais e filhos dessem as mãos, unidos para alcançar seus irmãos que jogam-se por entre "abismos e florestas", em uma sociedade individualista, egocêntrica, aonde a ignorância é vizinha da maldade.

Retratando a maldade, não podemos deixar de navegar no mundo de alguns políticos, onde a encenação não passa de um espetáculo fracassado.

Não devemos desprezar as palavras de Carlos Drummond de Andrade, que em um único livro nos contou o enredo de todos os quatro, pois assim, como nós, já estava cansado de correr na direção errada, sem pódio de chegada, "...pois o tempo não pára, isto o poeta nos contou, pois não morreu, foi ao inferno e voltou, conheceu o enxofre da história...". O amor que um dia foi a coisa mais pura, hoje se transforma numa palavra desconhecida, onde alguns jovens confundem o que é o amor.

Atracamos a caravela no ano 2000, agora, não mais portuguesa, mas uma caravela com uma miscigenação de raças, de braços não mais ingênuos e simples como éramos antes, e sim, pessoas sofridas, exploradas mas perseverantes, com muita vontade de vencer e acabar com toda a corrupção que gira em torno do nosso país.

Finalmente, estamos tentando desembarcar em um novo milênio, em uma nova era, uma nova humanidade, humanidade esta, viva e jovem, com sede de liberdade, clamando por justiça. Devemos fixar residência na educação e na cidadania, e juntos, todos de mãos dadas, como perspectiva única para enfrentar esses tempos difíceis, acreditando que a união, a consciência tribal e as soluções coletivas, sejam as únicas formas de resgatar a grandeza e a beleza do mundo, pois a vida, ainda vale a pena que pagamos, e teremos pela frente mais 500 anos de reflexão para restaurar a nossa linda história, com esperanças de um futuro positivo em um mundo globalizado e promissor para nós, jovens!

E o cotidiano?

Este estará sempre exposto movido pelo preconceito, pelas crendices, valores e éticas que ditam as normas do monumento, temperadas individualmente com muito amor, esperança, fé, alegria e positivismo, todas as qualidades que não nos faltam em um país tão miscigenado. Não esquecendo nunca, que apesar de todas as injustiças sociais, nós continuamos sendo um povo feliz e hospitaleiro.

Avança Brasil, que a vitória é sua e de mais ninguém, estaremos na platéia e aplaudiremos de pé os seus 500 anos.

 

Autora: Zilá Ruiz  de Moraes